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quarta-feira, 4 de abril de 2012

Proteção demais....

“Ei, mãe, não sou mais menino, não é justo que também queira parir meu destino...” – Roberto Carlos
  

Toda a criança necessita de proteção para um melhor desenvolvimento e crescimento, e não há dúvidas de que esta tarefa deve ser inicialmente incumbida aos pais. Mesmo na modernidade, onde é frequente a ocorrência de mães que trabalham fora de casa e de pais que dedicam boa parte do tempo à educação dos filhos, ainda são elas as que mais envolvem-se neste processo. Todavia, quando há uma ausência decorrente de pouco convívio entre mãe/filhos, corre-se o risco de que esta seja compensada com muito apego, e o que era para ser saudável pode tornar-se prejudicial. A autonomia das crianças, suas autoestima e confiança, serão melhores resolvidas se estas tiverem oportunidades para suas tentativas, onde erros e acertos serão parceiros na construção de um aprendizado.
Fala-se muito em limites na educação dos filhos, até que ponto eles podem ir, porém, a recíproca deve prevalecer também para os pais: eles devem poder distinguir até aonde suas preocupações com os filhos não são exageradas. Muito deste comportamento controlador vem da forma como estes pais foram criados, de suas experiências infantis, de suas carências afetivas ou de suas estruturas de personalidades. O ciclo vital pelo qual passam, seja por casais jovens e inexperientes ou mesmo por pais de idade mais avançada (que podem achar estarem velhos demais para criar os filhos) influenciam neste afazer. Ainda, a ausência de um dos cônjuges, seja por separação, morte ou por contingência de afastamento para o trabalho, pode levar a quem permanece (normalmente a mãe) a cometer exageros. E isto serve tanto para crianças, adolescentes ou mesmo adultos jovens que ainda moram juntos. O filme brasileiro Através da Janela é um exemplo disto, retrata a relação de uma mãe, viúva, com seu único filho que (apesar de seus 22 anos de idade) é tratado como se dependesse da mãe para tudo, desde lhe servir o café da manhã até a recortar jornais para auxiliá-lo na busca por um emprego. A conseqüência dos exageros por ela cometidos se vê na película e na vida real de muitas famílias.   
É comum, num ambiente de insegurança paterna, a manifestação desta através de um estado elevado de ansiedade dos pais, o qual deve ser controlado sob pena de que tal sentimento venha a ser percebido e transferido também para os filhos. Em era de avanços tecnológicos, há pais que através de um telefone celular imiscuem-se na vida de seus filhos monitorando-os permanentemente, de maneiras a obter com isto alguma forma ilusória de tranquilidade. Não raro, pais com comportamentos superprotetores tendem a reeditar com seus filhos dificuldades que tiveram em suas adolescências, simplesmente atualizando seus medos sem tê-los superados. Como na letra em epígrafe, pensam que devem ser unicamente os responsáveis pelos destinos de seus rebentos.
O crescimento dos filhos é um processo natural e que deve ser enfrentado como um desafio, não cabendo aos pais utilizar o discurso do perigo para impedir o distanciamento. Por sua vez, a distância saudável dos filhos não significa um afastamento afetivo, os pais podem ser excelentes educadores sem, no entanto, estarem muito apegados ou – em lado oposto - indiferentes. Crescer não implica em despedaçar a família de origem, mas em transformá-la sem permanecer enredado na ilusão de que a família é o mundo inteiro e que o próprio espaço de vida se esgota nela. Cabe aos pais conversar e refletir sobre suas dificuldades na educação de seus filhos, lembrando que tal ofício requer curiosidade e busca de informações sobre o que está acontecendo no mundo deles. Mas apressem-se, as mudanças estão rápidas demais.

  

César AR de Oliveira – psicólogo

quinta-feira, 22 de março de 2012

Disfunção sexual masculina e desejo

“O homem não está na cama para se divertir, mas para provar que é formidável como amante, chantageado com a idéia de que, se não o fizer, será desprezado, posto sob suspeita de não gostar de mulher, desqualificado como homem e como pessoa.” (Veiga, 1997)



Extraí do livro O aprendiz do desejo (Cia das Letras) do psicanalista Francisco Veiga a citação em epígrafe. A partir desta, é possível perceber o quanto o homem cobra de si mesmo sobre seu desempenho sexual, sobre sua virilidade, sobre os atributos masculinos. No entanto – no texto – a idéia que o chantageia, mais do que sua, é da coletividade: afinal, as chacotas e a humilhação poderão vir de outros homens, ou então, (escárnio!) circular entre as conversas femininas.

É da nossa cultura a pressão exercida sobre os homens quanto à maneira que deveriam extravasar seus sentimentos, afinal, “Homem não chora” e deve manter-se sempre forte e, não bastasse, disposto a provar-se forte. Com relação à disfunção erétil, a clássica frase “Isto nunca aconteceu comigo antes...” é uma forma racionalizada de negar a vulnerabilidade à falha. Mas de que falha falamos? A disfunção erétil por si constitui-se como tal ou a falha encontrar-se-ia em outro local?

Entenda: A disfunção erétil (popularmente chamada de impotência sexual masculina) tem suas causas nos fatores emocionais tanto quanto nos fatores físicos. Alterações vasculares, má formação peniana, diabetes, fugas venosas, hipertensão, tabagismo, alcoolismo, entre outros, podem causar esta disfunção sexual, mas o que se vê também na clínica psicológica é que a ansiedade, a depressão, a baixa auto-estima e o estresse são também os grandes responsáveis por essa situação que é vista com tanto preconceito pelos homens.

De qualquer forma, essa disfunção atinge homens de todas as idades e classes sociais, além de provocar muita frustração, vergonha, angústia e medo. Na realidade, a maioria dos homens tem muita dificuldade de aceitar que podem estar com problemas sexuais, uma vez que muito da auto-estima está embasada na ereção do pênis, e essa vem do universo masculino e da eleição de seus ícones de virilidade, tais como, músculos, força física, inteligência, e, sem dúvidas, ereção.

Evidentemente que em uma investigação sobre tal disfunção sexual não descartam-se as questões de ordem biológicas, mas, eliminados os riscos do indivíduo ter desenvolvido uma doença ainda sem diagnóstico, a investigação deve ser também das condições emocionais dessa pessoa e conseqüentes comprometimentos.

Não ser formidável como amante é um dos maiores temores masculinos e é capaz de determinar os rumos de qualquer relacionamento, pois é sabido que os homens não aceitam falhar neste aspecto e se sentem desmoralizados, uma vez que este fato é tido como um atentado mortal não só à sua virilidade, mas à sua masculinidade e poder como um todo. Mas “provar” sua performance para quem? E onde é que fica o desejo? “A infinito delírio chamado desejo, esta fome de afagos e beijos, esta sede incessante de amor...” Partindo do que nos diz o poeta, permitimo-nos interpretar que o desejo, este entusiasmo sem fim, que tem sede e fome – e por isto vive! – é carente de afetos, e aí reside a diferença entre os homens que buscam sexo daqueles que buscam afetos: no segundo grupo, há que se ter desejo. Para Platão, o desejo é característico daquele que vive, que sente sua incompletude. Para a Psicanálise, é o que move o sujeito em direção ao Outro em busca da completude.

Então, muito antes de que nos sintamos pressionados pelo grupo, ou por aquilo que se esteriotipize como cultura masculina, é preciso parar e pensar: há desejo? Afinal, precisamos levar em conta que estamos lidando com nossos sentimentos e com o dos outros, e que destes, resultamos nós, protagonistas de nossa felicidade, ou não.

A disfunção sexual pode e deve ser tratada tanto por médicos quanto por psicólogos. Quando necessário e quanto antes o indivíduo procurar ajuda, mais rápido esse problema poderá se resolver.

 

César A R de Oliveira

Psicólogo

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

SÃO TANTAS EMOÇÕES...


“Se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi!” – Roberto Carlos


Para uma melhor compreensão, o entendimento de emoções como sinônimo de sentimentos (da maneira abordada neste artigo) não obedece ao rigorismo acadêmico, mas sim ao senso comum. Algumas patologias psíquicas têm por sintoma o embotamento afetivo, uma forma de não manifestação de emoções que pode ser confundida como um comportamento de indiferença. Porém, no dia a dia da sociedade, encontramos muitas pessoas com dificuldades ou impossibilidade de manifestarem suas emoções sem que no entanto estejam doentes. Nossos próprios conceitos sobre emoção são por vezes distorcidos: se tomamos uma decisão baseados em nossos sentimentos corremos o risco de crítica por não termos levado em conta a razão. O dicionário Aurélio traz por definição ao termo emotivo a expressão “homem sensível”, e a este, “...aquele capaz de expressar sentimentos humanitários”.  Mas quando e como expressamos nossos sentimentos? Quando podemos expressar nossa sensibilidade?
Como uma espécie de linguagem universal, as expressões faciais de emoções são idênticas em todas as culturas, o que se diverge é sobre quais seriam as emoções básicas: medo, felicidade, tristeza e raiva para alguns, acrescidos de nojo e surpresa para outros. Não obstante, o que mais pesa é a cobrança social destas como formas de comportamentos. O cliente quer um profissional que o receba com disposição, bom humor, educação, pouco importando sobre que tipos de problemas possam estar ocorrendo em sua vida pessoal. Emoções que não estejam em sintonia com o esperado resultam em um olhar de desconfiança, ou até mesmo de reprovação, e o difícil é aparentar um estado emocional que esteja em conflito com os sentimentos próprios. Uma boa forma de amenizar tais situações é nos questionarmos sobre se o fato que está por nos tirar do sério merece toda a importância que estamos dando-lhe. Ao conseguirmos manter o distanciamento interno necessário será mais fácil manter a calma, pois em muitas das vezes trata-se de uma relação casual e desprovida de intencionalidade em nos atingir. Nosso colega poderia ter atendido aquela pessoa mal humorada e ter “sobrado” para ele.
O fato é que pessoas estressadas ou em estado depressivo tem muito mais dificuldades em controlar suas emoções, e por conta disto, a fisiologia pode alterar-se: insônia, gastrites, dores musculares, e, em decorrência, as relações sociais, de trabalho e até mesmo a conjugal podem ficar comprometidas.
Mais do que ficar a criticar os outros e aos fatores exógenos que nos levam a este mal estar, devemos procurar formas de amenizar tal sofrimento. Técnicas de relaxamento respiratório e postural auxiliam, assim como encarar tais situações como um desafio, e não um problema. Além disto, após uma situação estressora é preciso uma pequena pausa para voltar à calma, para distinguir o momento e evitar com que outras pessoas que não fizeram parte da situação anterior sejam atingidas. E o fundamental: ser tolerante, pois é preciso considerar que outras pessoas, assim como nós, cometem erros.
Quanto ao questionamento sobre quando/como devemos expressar nossos sentimentos, devemos levar em contar sobre o quanto seremos observados. Estudos na Universidade de Ulm (Alemanha) mostrou que a percepção das expressões faciais alheias é possível e está condicionada sobre ao tempo de exposição ao observador. Ou seja, ainda que se tente dissimular sentimentos, muito provavelmente há chances de que nosso interlocutor perceba nossa intenção. Ainda que se consiga êxito no aparentar sentimentos, devemos levar em conta que para nós, a verdade é outra, Ou superamos o momento enfrentando a situação que nos incomoda ou estaremos propensos a um sofrimento que estará mascarado na dissimulação destes.     


César AR de Oliveira – psicólogo

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sobre Autoestima


“Falta ambição para o Brasil se tornar uma superpotência” – Parag Khanna – consultor de política externa do presidente americano Barack Obama 

A manifestação supracitada pode, para alguns, causar indignação: o que um gringo tem a ver com nossas coisas, nossa brasilidade? Ainda que a referência seja ao nosso país, nossa individualidade está atingida pois somos nós quem fazemos (ou deveríamos) nossa Nação.
Acontece que tal sentimento fere nosso orgulho e pode ter forte relação com nossa autoestima. De forma simplificada, ela pode ser definida como aquilo que pensamos a respeito de nós mesmos e que repercute em nossas relações afetivas, sociais e profissionais. Também está relacionada com a autoimagem que fazemos e, por conseguinte, sobre como interfere em nossas vidas.
Há um grande engano pensar que apenas uma autoestima elevada seria o ideal de vida de cada um. Diferentemente disto, o desejável seria uma autoestima estável. Reconhecer-se forte, inteligente, bem ajustado socialmente é um bom indicativo quando, ao mesmo tempo, somos capazes de admitir que temos algumas fraquezas, temores e que não somos onipotentes. Desta forma o caminho para a aprendizagem e o amadurecimento passa a ser um processo natural.
Pessoas com autoestima saudável são capazes de valorizar pequenas conquistas, de diversificar interesses, desempenhar diferentes papéis, e atuar bem nas relações familiares, profissionais e de amizades, além de manter uma boa autonomia em suas vidas. Tais aptidões são benéficas à medida que viabilizam a aceitação social, pois, do contrário, um sentimento de rejeição viria acompanhado muitas vezes de comportamento depressivo, de menos-valia e de ojeriza à própria imagem. A desvalorização social interfere nos mecanismos de autocontrole que permitem enfrentar desafios novos de forma equilibrada. Em 1930, ao escrever sobre O mal estar na civilização, Freud disse que um dos grandes obstáculos do homem em sua busca pela felicidade, e que lhe traz maiores dificuldades, é o sofrimento resultante das relações humanas.
Pessoas que sentem-se atingidas em sua autoestima podem perder o domínio de si e a vontade de se esforçar, sentindo-se limitadas e com a impressão de que os que estão à sua volta estão lhe observando (e a seus defeitos) o tempo todo. Valorizar as próprias qualidades e saber de suas limitações podem ser ferramentas imprescindíveis ante a situações de crise ou de fracasso, todavia, o mais importante é não isolar-se ou ficar centrado no próprio sofrimento, é preciso ver outras possibilidades.
Uma pessoa com baixa autoestima não está propensa ao uso compulsivo de bebidas de álcool, drogas ou a comportamento agressivo. Há estudos americanos que concluem ainda que também o desempenho escolar ou profissional não são afetados por isto, todavia, há um forte indicativo de que autoestima adequada está proximamente relacionada com felicidade, com um menor índice de depressão. Na Universidade americana de Utah, 13 mil universitários foram entrevistados e alegaram que a autoestima era a principal causa de satisfação com a vida.
Em uma pesquisa realizada pelo Jornal de Personalidade e Psicologia Social (EUA), no Brasil, cerca de um terço da população relaciona a autoestima com a satisfação com a vida em geral, o restante, inclui a satisfação financeira como fator para uma boa autoestima.
A busca pelo autoconhecimento e o melhor ajustamento da autoestima como ferramenta de grande utilidade nas relações sociais, possibilitaria um melhor convívio em grupo e nos fortaleceria na persistência diante do fracasso, além do que, o relacionamento saudável conosco mesmo nos possibilitaria maior felicidade.

César A R de Oliveira – psicólogo

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Boas Férias, mas.....



“Relaxa e goza, porque depois você esquece todos os transtornos”. Ministra Marta Suplicy, junho 2007

Nesta época do ano muitos argumentos são direcionados para as férias: aproveite bem seu 13°, revise seu carro, seja moderado, beba muita água, use filtro solar, pague seu IPVA e IPTU com descontos etc... Todavia, é preciso que se tenha um bom proveito deste período para que, desfrutando de um merecido descanso, possamos reiniciar um 2012 (mais longo e com menos feriadões) em excelentes condições psíquicas e físicas. Qual a necessidade de levar seu note-book para a viagem de férias? É preciso olhar seus e-mail diariamente? E o celular, dá para deixar mais tempo desligado? Bem, quanto à televisão e jornais, estariam te deixando realmente de férias? Lembre-se que você não é insubstituível em seu trabalho.
Uma série de indagações poderia ser feita, mas, na essência, troco-a por uma orientação: mudança de comportamento. É preciso estar disposto a entrar em férias e saber que outras tantas pessoas estão com os mesmos planos. Todos querem ir à praia no mesmo horário que você, todos resolvem ir à pizzaria igualmente à mesma hora e minuto, e assim é para pegar o pão e o leite no supermercado à noitinha, ir à sorveteria, ir para a estrada e tudo o mais. Filas.  Adianta irritar-se? Transformar este pequeno período de descanso em uma ocorrência policial ou em uma gastrite vale a pena? É preciso mudar o comportamento. Seja mais tolerante, mais educado. Se você conhece bem o local lembre-se de que muitos turistas estão indo para lá pela primeira vez e não conhecem ruas e cruzamentos. Seja mais amigável, dê a preferência, dê passagem a quem estiver necessitado. Cumprimente seus vizinhos ou usuários da mesma pousada, não custa. Goste de si mesmo, seja mais um de seu fã clube. Se precisar de ajuda, peça-a. Seja bem humorado, não se leve à sério demais. Procure estimular sua vida espiritual, a paz interna nos deixa dormir melhor. Caminhe mais, olhe com mais atenção o que está à sua volta. Coma devagar e saboreie os alimentos. Sorria.
É preciso lembrar que o estresse, segundo a Organização Mundial de Saúde, está entre as cinco doenças de saúde mental que mais causam incapacitações no mundo. Um quadro de estresse crônico afeta o sistema imunológico, aumenta o risco de males cardíacos, pode levar à queda acentuada de cabelos, com o aumento da dosagem de glicose no organismo pode aumentar o risco de diabetes e de obesidade, a queda dos níveis de testosterona faz diminuir o desejo sexual, enfim, uma série de malefícios ao organismo poderia ser citada. Então, opte pelas vantagens de uma mudança de comportamento.
Infelizmente, para muitos, o estresse só torna-se legitimado como doença quando os sintomas falam mais alto. “Fulano passou mal no trabalho, estava com uma dor no peito, acho que é coração!”; “Como é que pode, ele nunca tinha desmaiado antes...”; ou: “Não dá para aguentar o chefe, anda irritadinho e brigando com todo mundo”. Então, por que esperar as consequências se podemos realizar ações preventivas de forma a evitá-las?  Um check-up médico periodicamente é uma excelente forma de prevenção, assim como um acompanhamento psicoterápico como meio de facilitar a expressão de sentimentos e de se permitir a uma reflexão. Cuidados alimentares, prática de atividades físicas, higiene de sono e psicoterapia, podem ser algumas das boas coisas que você pode dar-se o ano todo.
Bem, quanto às férias, na hora de vir embora pegue tudo o que foi sugerido como mudança de comportamento, arrume um lugarzinho no porta-malas (sempre se dá um jeito) e traga-o consigo. Pode ter certeza, o seu novo ano será muito melhor, seus amigos parecerão mais amigos, seu trabalho renderá mais, sua família terá mais atenção, sua saúde terá mais qualidade e, ao final, você terá muito a ganhar. É só uma pequena mudança de comportamento e que depende apenas de você. E se o conselho da notável Ministra não lhe for ofensivo...

César A R de Oliveira

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

2012: PENSAR POSITIVAMENTE FAZ BEM

“...“Enganaste-te na pessoa ao escolheres um corpo para viver, cometeste um erro porque escolheste o meu”. Lance Armstrong, 37 anos

A frase acima foi proferida por um grande atleta americano logo após saber de seu diagnóstico de câncer. Num diálogo com a doença que lhe acometia com muita intensidade - pois fora diagnosticado um tumor no testículo, um no pulmão e outro no cérebro “do tamanho de bolas de golfe”- Lance Armstrong reagiu e superou-se. Após enfrentar esta luta contra o câncer, foi ainda, desde a criação em 1903 na França, o único vencedor por sete vezes consecutivas do Tour de France, (1999 a 2005) uma das provas de ciclismo mais difíceis do mundo cujo percurso no somatório das etapas chega a 3 mil quilômetros.
A forma positiva como reagiu Armstrong, motivou-o na criação de uma importante fundação que leva seu nome no apoio a vítimas de câncer e ainda na redação de dois livros de sua autoria que relatam sua façanha.
Recentemente, no ano de 1998 nos Estados Unidos, Martin Selligman, ex presidente da Associação Americana de Psicologia, deu origem a um movimento denominado Psicologia Positiva, o qual incluía psicólogos, pensadores e cientistas americanos de universidades importantes que buscavam aplicar um método científico-quantitativo a esta área. Tal movimento não se trata de uma nova Escola da Psicologia, assim como a Psicanálise, a Psicologia Comportamental ou outra, mas de uma forma de a psicologia colocar a sua atenção nos aspectos saudáveis do ser humano, diferentemente de algumas das tradicionais que focam o sintoma, a doença.
Na mesma linha de pensamento encontramos nas neurociências fundamentações de que os conceitos que estruturam nossos pensamentos ocorrem nas sinapses cerebrais, ou seja, de que mudanças comportamentais de enfrentamento a situações difíceis podem nos levar aos resultados desejados. É claro que muito disso pode ser encontrado em literaturas rotuladas de auto-ajuda, dando argumentação à contrariedade dos céticos, de que as coisas acontecem por que tem de acontecer e que só pensar de maneira diferente não vai resolver.
O Instituto Nacional de Saúde dos EUA realizou um rigoroso estudo científico sobre o tema Longevidade e Felicidade em 178 freiras de um convento no estado de Minessota. Todas mantinham um estilo de vida sem fumar e beber, seguiam a mesma dieta alimentar, usufruiam da mesma qualidade de assistência médica, enfim, padrões muito parecidos em suas vidas. Em um detalhado trabalho científico, os pesquisadores tiveram acesso aos diários dessas freiras, e, o grande achado, foi o de que aquelas que tinham registradas expressões do tipo “muito feliz, alegria, amor...” dentre outras emoções positivas, encontraram-se no grupo das que viveram até pelo menos os 85 anos de idade. Ou seja, as freiras que mais cultivavam sentimentos positivos viveram por mais tempo e com mais saúde.
Ante tantos referenciais, quero lembrar o filósofo Sêneca (séc I d.C.) que dizia que o homem preocupa-se em viver muito e não em viver bem, quando não depende dele viver muito, mas sim, viver bem. Uma concepção está imbricada com a outra pois é possível viver muito, desde que se viva bem. Então, neste final de ano, não se cobre em demasia estabelecendo metas, coisa futuras para serem atingidas, concentre-se no hoje, no aqui e no agora, na sua qualidade de vida. Por conseguinte, um dia bem vivido vai assegurar um amanhã melhor e a certeza de que ao olhar-se para o passado algo terá ficado. Não é à toa que o dia de hoje se chama “presente”, uma dádiva que poucos conseguem olhar assim: como um presente!
Pensar positivamente não é olhar o mundo com lentes cor-de-rosa, mas pode ser uma opção para darmos um colorido àquelas pessoas e coisas que insistem em permanecer na mesmice.

César A R de Oliveira – psicólogo

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

É preciso falar sobre a morte

“... o ser humano evita ir em busca do seu próprio eu por medo de se deparar com sua finitude, o que lhe gera angústia pela limitação sentida diante da morte.” Adriana Bertoletti


Durante os momentos de sessões de autógrafos da última Jornada Nacional de Literatura, destaco o do livro “Educando para a vida e a morte” – trecho em epígrafe – de autoria da passofundense Adriana Bertoletti. Como profissional da enfermagem, relata uma experiência singular de 15 anos de trabalho em Centro de Terapia Intensiva (CTI) e de sua responsabilidade como mestra,  professora que atua na formação de novos cuidadores da saúde. Só quem tem este contato diário com o sofrimento das pessoas em tratamento nos CTIs  (incluam-se seus familiares e amigos angustiados em salas de espera e corredores) e com as limitações técnicas e humanas de  uma equipe de atendimento, pode relatar com precisão um tema que nos assusta só pelo nome.
Mas como está explícito no título da obra, é também através de uma educação para a vida que o sofrimento poderá ser minimizado. A primeira grande lição que poderíamos apreender com nossas reflexões consistiria em não aceitarmos a banalização da morte. Temos notícias da Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República (associada a Universidades e Unicef) sobre estimativas de que morrerão 33mil jovens por assassinatos no Brasil num período de apenas seis anos (de 2006 a 2012), ou seja, 13 jovens por dia. Na mesma linha, o estudo "Morte no Trânsito: Tragédia Rodoviária" realizado pelo SOS Estradas aponta para 42 mil mortes ao ano no Brasil, numa média de 35 por dia -uma a cada 40 minutos- sem falar naquelas que acontecem em hospitais, dias depois, como consequência destes acidentes de trânsito. Todos estes dados frios (e há muito mais) transformam-se quando um pai ou uma mãe aparece na clínica psicológica com um sofrimento intenso, deprimido, com sentimentos de culpa e de incapacidade para viver por que uma destas mortes prenunciadas em “estatísticas” tornara-se realidade: perdera o filho.  
A segunda grande lição na educação para a vida seria a da necessidade de uma mudança cultural, a de aceitar que nascemos para morrer. A biologia sabe disto: as unhas de nossas mãos não são as mesmas com as quais agarramos a vida um tempo atrás; nossos cabelos já foram tantas vezes cortados que não são os mesmos de um retrato antigo; nossa pele?  Já era! Literalmente trocamos nossa casca várias vezes durante a vida. Se estas perdas nos acompanham diariamente, aceitá-las não significa inércia ou passividade, pelo contrário, podem representar uma conscientização seguida de muita ação e de trabalho para modificar um quadro banalizado sobre mortes que fingimos não ver.  
Viver é isto, um ato de morrer constantemente. Ao lançarmos nosso olhar para esta filosofia de vida, quem sabe nos tornemos mais amorosos, menos irritáveis, mais compreensivos, menos consumistas. Afinal, o tempo também nos consome a cada instante, e ficar na ilusão de que isto não esteja acontecendo, somente aumentará o impacto quando nos depararmos com a realidade.      

  
 

César AR de Oliveira – psicólogo