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segunda-feira, 11 de julho de 2011

Sobre algumas mentiras...




“Enganar a nós mesmos permite-nos manipular egoisticamente os que nos cercam e permanecer convenientemente inocentes perante os próprios olhos.” David Smith - psicólogo


Um dos significados dados ao “Primeiro de Abril” está relacionado à enganação, ao Dia dos Bobos, à mentira. Muitas brincadeiras são feitas em nome destas mentiras, as quais, em outros contextos, tendem a ser atitudes reprováveis. Educamos nossos filhos com afirmações como a de que mentir é feio e que não deve ser feito, no entanto, basta uma criança um pouco atenta para nos apanhar em contradições. Toca o telefone de casa e antes mesmo de atender o pai diz: “Se for para mim(sic) digam que não estou...”, sem preocupar-se com as consequências de sua fala.
A dissimulação é um artifício, segundo alguns biólogos, empregado por muitas espécies de seres vivos, de vegetais a seres humanos, sendo entendida até mesmo como inata a todos nós. Não é preciso mais do que abrir um livro, ver um filme, assistir à televisão para nos depararmos com toda a sorte de ardis que o homem é capaz de criar. Diversos profissionais que estudam o comportamento humano relatam as mais prolixas pesquisas e experiências que comprovam atitudes enganosas em diferentes idades, classes sociais e culturais. Mente-se para obter uma vantagem, para não ser multado no trânsito, para justificar um atraso, para obter prestígio, para uma conquista amorosa e para tantas outras situações cotidianas. Mente-se também de forma não verbal escondendo a verdade ao utilizar-se de maquiagens, de cirurgias consideradas cosméticas, ao cobrir-se de objetos de grife ou então ao aparentar-se condição social elevada em um flamante carro novo (enquanto se evita o contato com a escola dos filhos que está com os pagamentos atrasados...).
Mas, embora de uso comum e tolerada enquanto não nos cause problemas (mais do que aos outros) a mentira tem um limite. Há pessoas que enredam-se tanto com mentiras que acabam autoenganando-se, acreditando até mesmo que estejam falando a verdade, tornando-se persuasivas. Agem assim como uma forma de fuga à realidade, pois é melhor acreditar no fantasioso uma vez que lhes causa menos sofrimento. Todavia sempre emerge uma ponta de verdade que faz com que essas pessoas sofram, pois empenham muita energia psíquica para manterem as condições enganosas. O temor da vergonha de que venham a ser descobertos, as frustrações decorrentes disto, tudo acaba por gerar um mal estar a ponto de causar manifestações fisiológicas como dores de cabeça, sudorese, taquicardia, alteração na pressão arterial dentre outras.
Agir sob o signo da mentira, leva a pessoa a querer manipular os outros e, em muitas vezes, a comportar-se de forma desrespeitosa, o que pode gerar mais adiante um sentimento de culpa (quando não se tratarem de psicopatas). Quando confrontada a pessoa mentirosa pode tornar-se irritada e agir tempestuosamente, gerando um clima de desconforto e de constrangimento até mesmo para outros que estejam no ambiente. Há ainda as que mentem para ocultar um comportamento compulsivo, como o de uma compra inadequada, o hábito de beber as escondidas ou a gula por doces ou comidas, por exemplo, mas que sofrem caladas por não poderem revelar a verdade.
Bem, nestes casos, o doloroso encontro com a realidade passa por uma psicoterapia voltada ao entendimento de tal comportamento, ao estudo e a análise sobre a influência dessa conduta na vida do sujeito e sobre o quanto lhe tem sido prejudicial. Alguns perfis de personalidade são mais propensos a apresentarem características que o jargão médico chama de “mitomania”, ou seja, a utilização da mentira como uma forma de amenizar a vida. Mas com esforço, dá para conviver com ela sem sofrimentos.
 

César AR de Oliveira – psicólogo

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Derrame, uma das doenças que mais mata!

“Quero enviar uma mensagem a todos os que sofreram um derrame: não se deixem abater. Levantem a cabeça, façam uma revisão de seu padrão de vida, sigam o tratamento, tenham ânimo”.(Joãosinho Trinta, 73 anos, carnavalesco).

Em novembro de 2004 o carnavalesco Joãosinho Trinta virou notícia, não por ter sido nove vezes campeão do carnaval carioca, mas por ter sofrido seu segundo derrame (AVC – acidente vascular cerebral). O AVC é a segunda principal causa de morte no mundo, e, segundo o Ministério da Saúde, só nos quatro primeiros anos deste milênio - juntamente com o infarto - matou mais de um milhão de pessoas no Brasil. Depois vêm as causas naturais e mortes por falta de assistência, o câncer e as causas externas: acidentes, homicídios, suicídios entre outros. Existem dois tipos de derrame, os isquêmicos, que acontecem pela obstrução de uma artéria por um coágulo de sangue ou pelo acúmulo de placas de gordura e os hemorrágicos, geralmente decorrentes de rompimentos ou de dilatação de artérias que acabam por afetar a estrutura do cérebro e podem ser fatais. De cada cinco derrames, quatro são do tipo isquêmico, e, segundo a Organização Mundial de Saúde, o derrame mata cerca de 15 milhões de pessoas anualmente no mundo.
Cada minuto é vital quando se precisa de atendimento decorrente de um AVC. A Associação Americana de Derrame sugere que o atendimento em até 45 minutos após os primeiros sintomas seja o mais recomendado, e limita em até 3 horas para a aplicação de um remédio trombolítico, a fim de que haja uma redução de até 30% do risco de seqüelas. Todavia, nos Estados Unidos levam-se em média 12 horas para o atendimento hospitalar, enquanto que no Brasil apenas 1/3 dos pacientes recebem atendimento em até três horas. Por uma questão lógica: se temos muito mais tempo para buscarmos alguma forma de prevenção, por que correr atrás de alguns minutos ou de poucas horas após o derrame para tentar minimizar suas conseqüências?
Adotar medidas preventivas para o AVC não significa ficar livre de riscos, e a psicologia também pode contribuir para com a prevenção. Estudos apontam as duas principais causas de AVCs (excluindo-se a propensão hereditária): a obesidade e o tabagismo. Se considerarmos que a obesidade é multifacetada, mas que nela estão imbricados hábitos nada saudáveis de alimentação, compulsões alimentares, baixa auto-estima que impedem a prática de exercícios físicos, quadros depressivos pela condição de obeso dentre outros, e o tabagismo como dependência química/psíquica, veremos que a psicoterapia pode dar sua contribuição para a minimização do número de vítimas de AVC.
A hipertensão é a principal causa de derrames, pois pessoas que tem pressão arterial elevada correm três vezes mais o risco de ter o problema, enquanto que quem fuma, o dobro. O agravante é para mulheres fumantes, pois se estiverem fazendo uso de anticoncepcionais tornam-se potencialmente vulneráveis. É mister ter cuidados também com o índice elevado de colesterol, com diabetes não diagnosticada e com a obesidade.
Além destas principais causas orgânicas não se deve ignorar as de origem emocional que desencadeiam alterações fisiológicas como altas cargas de neuro-químicos que sobrecarregam o sistema cardiovascular, por exemplo. Notícias impactantes, perdas imensuráveis, eventos expressivamente traumáticos podem afetar tão intensamente o corpo e resultar em um AVC.
Dentre as seqüelas físicas mais comuns no pós-AVC encontram-se a hemiparesia (paralisação de um dos lados do corpo), as alterações visuais e da fala, e ainda alterações cognitivas, sendo as mais freqüentes da memória, da percepção, da atenção, do raciocínio lógico e da leitura.
Por toda a mudança que decorre na vida das pessoas atingidas (limitações físicas, de comunicação, situação de dependência) em aproximadamente 30% dos pacientes ocorrem casos de depressão pós-AVC. Outras reações bastante comuns são o aparecimento da labilidade emocional - onde a pessoa chora ou sorri de forma exagerada ou sem motivo aparente - a ansiedade, agitação, irritabilidade, fadiga, falta de iniciativa, de motivação ou de interesse nas atividades, apatia e explosões de raiva.Todas estas alterações físicas, cognitivas e comportamentais dificultam a evolução funcional podendo gerar também um maior declínio cognitivo.
Dentre pessoas conhecidas que sofreram AVCs e que recuperaram-se, poderíamos citar o cantor Sérgio Reis, o Papa Bento XVI (em 1992), o cantor e compositor Edu Lobo, o ex-primeiro ministro de Israel Ariel Sharon, o ex-jogador de futebol da seleção brasileira Márcio Santos dentre tantos, mas, reitero, muitos morrem e um número ainda maior fica com seqüelas incapacitadoras ou ainda com graves limitações.
Como dispomos de muito mais tempo para a prevenção do que para o socorro durante um AVC (quem garante que estaremos acompanhados para sermos socorridos?), é importante fazermos algo o quanto antes, e isto passa por uma mudança de hábitos que para muitos parecerá impossível fazer sozinho. Atividades físicas regulares, alimentação equilibrada, livrar-se do cigarro e um controle emocional adequado, são importantes apoiadores para uma vida saudável, melhor ainda se orientados pelos respectivos profissionais.    

César A R de Oliveira – psicólogo
  

segunda-feira, 6 de junho de 2011

BIPOLARIDADE: altos e baixos em cada pessoa


“... cada vez que alguém reclamava da minha conduta, era desafio, mas cada vez que alguém dava carinho, me desarmava; (...) cada vez que tinham paciência, mesmo eu teimoso feito uma mula, eu cedia; por isso, dêem amor, dêem carinho, escutem com o coração.” João H. M. de Ávila

O texto em epígrafe foi extraído do livro Um Bipolar que deu certo... (Ed. Do Autor, 2006), relato de uma vida conturbada pelo Transtorno de Humor Bipolar. João Ávila é gaúcho e no decurso de sua obra nos apresenta sua história desde as brincadeiras de infância, acontecimentos na escola, adolescência, amores e desamores, vida adulta, trabalho, relações sociais e o quanto seu transtorno de humor esteve presente em sua vida sem que ele soubesse. Entre perdas (que foram muitas) e ganhos, somente na idade adulta – por volta de seus 30 anos - é que reconheceu a necessidade de buscar orientação profissional, a qual veio acompanhada do diagnóstico, de medicação e de recomendação para acompanhamento psicológico. Hoje, João Ávila é um empresário que conseguiu conciliar uma vida produtiva com afetividade, ao mesmo tempo em que encorajou-se para escrever em livro sua experiência, muito motivadora e esclarecedora para aqueles que lidam com a doença ou que tenham amigos e familiares em tal situação.
O Transtorno de Humor Bipolar já foi chamado de Psicose Maníaco-depressiva. Trata-se de um transtorno mental onde o humor assume uma autonomia que alterna entre dois pólos, altos e baixos, positivos ou negativos, mas que antagonizam-se numa expressão diametralmente oposta de comportamentos. Assim, em momentos de euforia (pólo positivo) a pessoa encontra-se com muita energia, agitação, agressividade, impulsividade, e tende a distrair-se facilmente, o que pode pôr em risco sua segurança e a de outros. Já nas ocasiões de momentos depressivos (pólo negativo) as principais características poderiam ser descritas como apatia, desânimo, tristeza acentuada, ansiedade ou mesmo falta de prazer. É claro que estas poucas descrições são de sentimentos e comportamentos pelos quais todos passamos, não significando necessariamente que manifestá-los tipifique um quadro clínico.
Não só as alterações comportamentais devem ser observadas, acontecimentos, como por exemplo, ser demitido, perder todos os bens, abusar da álcool e drogas, ser abandonado pelo cônjuge e pelos amigos, pela família, cometer infrações de trânsito, ser preso ou envolver-se em brigas são fortes indícios de que algo não vai bem. Não é preciso esperar que o comportamento manifesto comece a dar indícios de prejuízos de toda a ordem para que os familiares mais próximos busquem algum auxílio especializado. É muito importante a participação de familiares, amigos, colegas de trabalho ou de estudos, pois é bastante freqüente a pessoa acometida da bipolaridade negar a doença, ou mesmo, nem perceber o que esteja acontecendo. É conveniente lembrar que a tentativa de suicídio é 60 vezes maior entre os bipolares do que na população em geral.
Se considerarmos seus diversos espectros, a bipolaridade pode ser classificada de acordo com sua gravidade em maior ou menor intensidade. No entanto, uma pessoa acometida de uma bipolaridade leve mas que não esteja diagnosticada e em tratamento, pode vir a ter muito mais prejuízos e seqüelas do que outra, que esteja num espectro mais intenso da doença mas que conta com acompanhamento médico e psicoterápico. Outra verdade é que o temperamento forte do bipolar pode impulsioná-los a muitas realizações, basta que tenham uma real noção da dimensão que lhes afeta. Caso tivessem sido diagnosticados em suas épocas, muito provavelmente Elvis Presley, Marilyn Monroe, Elis Regina, Cazuza, Renato Russo, por suas sensualidades, criatividade, intensidade emocional, poderiam ser considerados bipolares. Não dá para esquecer ainda que o abuso de drogas, atividade sexual não segura e aventuras ousadas demais também lhes eram característicos. Tiveram seus momentos altos e baixos.
O diagnóstico correto, o uso de medicamentos, o acompanhamento psicoterápico, carinho e amor, podem dar uma boa qualidade de vida a pessoas com transtorno bipolar, minimizando assim os efeitos negativos da doença.

César A R de Oliveira

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A importância dos animais para a psicoterapia

“Quando Ulisses retorna a Ítaca após enfrentar os inimigos e a fúria dos deuses, ele verte lágrimas de emoção ao reencontrar seu velho cão Argos, o único a reconhecer o rei quando este chega trajado como um mendigo.”  in A Odisséia de Homero

A relação entre homens e animais faz parte da história da humanidade e sua ocorrência se dá nas mais diversas funções, desde a sua utilização para a tração, para a caça, locomoção, pastoreio, guarda, companhia dentre outras, além do que, é um fenômeno universal em distintas culturas com suas peculiaridades. Atenho-me a escrever sobre a aproximação/afinidade entre animais e seres humanos, prática descrita já em 370 a.C. por Hipócrates quando recomendava a eqüinoterapia como forma de recuperação do tônus muscular e de bem estar regenerativo à saúde.
Há na literatura vários relatos de pesquisas e de resultados do benefício que tal entrosamento pode trazer independentemente do animal que esteja em questão, e estes, podem ser os tradicionais cães e gatos bem como chinchilas, coelhos, tartarugas e até mesmo lesmas. Muitas são as conseqüências decorrentes, pois a simples presença de um animal pode evocar processos mnemônicos e cognitivos que ajudam, por exemplo, uma pessoa idosa a relembrar fatos passados e com isto ter despertadas emoções, enquanto que outros animais possam servir como sensibilizadores de funções táteis, olfativas ou de apoio contra-fóbico. Por outro lado, a interação entre cães e humanos, objeto de alguns estudos científicos, comprovou a diminuição de níveis de estresse, de pressão arterial, de colesterol e de casos de depressão, além de outras melhoras em muitos daqueles que se envolveram nestas relações. A companhia de um animal exige cuidados diários os quais, além das decorrentes atividades físicas (tratar, escovar, lavar, sair passear) permitem uma troca afetiva entre ambos, e é nesta oportunidade de uma comunicação não-verbal que se expressa a sinceridade. Em outras situações, muitas vezes as palavras ditas por alguém podem não manifestar seus reais sentimentos, ou então, estarem em discordância com suas expressões corporais, o que pode não acontecer quando estas são dirigidas aos animais.
A terapia mediada (ou assistida) por animais é multidisciplinar e serve-se a vários propósitos, sejam eles motivacionais, educacionais ou fisioterápicos, mas presta-se também para a psicologia como forma de apoio às melhorias em comportamento social ou reabilitações cognitivas e emocionais. Isto não quer dizer que a simples presença de um animal em casa seja terapêutica, mas sim, que a forma como se dá este convívio, quando de boa qualidade, serve como excelente instrumento para a potencialização da psicoterapia. É sabido que as pessoas cuidadoras de animais obtém melhores resultados psicoterápicos por estarem mais propensas às manifestações de sentimentos e à sua compreensão.
Muito cedo, durante uma fase de suas vidas, as crianças precisam afastar-se das mães para que seu processo de individualização (tornarem-se indivíduos) transcorra. É muito comum a entrada em cena do que o psicanalista inglês Donald Winnicott chamava de objeto de apego, de presença constante e como substituto da mãe, o qual pode ser exemplificado pelo paninho de dormir, o bichinho de pelúcia ou algo com esta função. Porém, num momento seguinte, o objeto que cumpre este propósito de transição precisa deixar de existir como tal, de maneira que os sentimentos de insegurança, de ansiedade ou de angústia da criança sejam naturalmente superados. Quando a criança tem acesso a um animal de estimação, seu processo de individuação e seu amadurecimento tendem a tornarem-se mais facilitados. Assim como Winnicott, Freud assegura que as crianças brincam também para controlar a ansiedade e organizar suas idéias e impulsos, e que a criança não encontra diferença entre sua própria natureza e a dos animais. Então, por imaginar (durante um período da infância) que os animais possam falar e pensar projetam neles sentimentos por pessoas próximas, servindo então de substitutos das figuras parentais. Considerando que não dá para puxar o rabo de um cachorro como um brinquedo e nem arrastá-lo pela sala, a projeção não é passiva, assim a criança aprende a lidar com as frustrações a as diferenças individuais.
De certa forma, sem as barreiras que o convívio social coloca – já que o contato físico entre humanos nem sempre é bem aceito – pessoas adultas conseguem ser um pouco mais sinceras com seus bichos de estimação quando lhes dão afago e expressões de sentimentos. O mesmo vale para aquelas pessoas que têm “barreiras psíquicas” e que encontram dificuldades em tocar outras pessoas, sintomas de inibições ou de angústia que quase as paralisam, mas que conseguem ser espontâneas com seus animaizinhos.
Assim, mais do que como um animal de companhia, nossos animais de estimação podem funcionar como motivadores e receptores de afetos, catalisadores de sentimentos e de expressões. As pessoas que mantém boas relações com eles estarão muito mais sintonizadas para a percepção do mundo que lhes acerca, e, desta forma, mais capazes de melhor usufruir da psicoterapia.

César A R de Oliveira – psicólogo

terça-feira, 3 de maio de 2011

Perdão e Psicologia Coexistem?



“O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício”
Martin Luther King


É muito comum na cultura brasileira que a palavra perdão seja freqüentemente associada a um sentido religioso, o que está correto. Porém, de acordo com o Dicionário Aurélio, trata-se também de “...uma renúncia às conseqüências punitivas que se entendam justificáveis para transgressões a preceitos jurídicos, morais ou afetivos vigentes”. É sobre o aspecto afetivo do perdão que escrevo.
Em sua obra O poder do perdão (Ed. Novo Paradigma, 2002) o psicólogo americano Frederic Luskin realiza um estudo sobre a influência do perdão no bem estar e na saúde como um todo das pessoas. Em uma abordagem com bases e critérios científicos realizou pesquisas e experimentos inicialmente na Universidade Americana de Stanford e, posteriormente, em um projeto na Irlanda do Norte entre católicos e protestantes vítimas de violências atrozes decorrentes da crise política que assolou aquele País por mais de trinta anos. Mortes, torturas, desaparecimentos de pessoas queridas, humilhações físicas e morais desencadearam uma série de traumas psíquicos nos sujeitos da pesquisa. Em síntese, dos resultados do acompanhamento do seu projeto, algumas das conclusões foram as de que o aprendizado do perdão reduziu significativamente a quantidade de sintomas físicos (insônia, úlceras, gastrites, dores de cabeça entre outros) que o grupo sentia, promoveu melhoras na qualidade de vida e gerou novos posicionamentos de otimismo com relação ao futuro para muitos dos participantes.
A capacidade de perdoar pressupõe e amplia as possibilidades de escolha. Perdoar e perdoar-se andam juntos, requerem a renúncia das supostas onipotência e onisciência (uma espécie de orgulho) atribuídas a si próprio e ao outro. Perdoar-se por seus erros, numa dimensão justa, resulta do abandono das pretensões narcísicas geradoras de culpas, de necessidade de castigo e sentimentos de vergonha que chegam a aniquilar todo o ser. Perdoar, segundo alguns autores, “é despregar-se qualitativamente do passado”. Todavia perdoar não é esquecer, é também aceitar o passado como passado - que não pode ser desfeito - mas que pode se tornar mais leve, como acontece em todo processo de luto. Perdoar requer ainda alguma superação do ressentimento revanchista, o que só se faz com esforço e tempo, não pelo atalho de um impulso súbito.
Porém, abrir mão do lugar de eterna vítima acarreta o risco de reconhecer os próprios erros, os malefícios cometidos contra outros e não se perdoar. É no trabalho psicoterápico que se encontrará amparo para a avaliação desta condição. O filósofo Sartre diz que somos os autores de nós mesmos, desta forma, o roteiro que traçamos para nossas vidas pode ser reescrito a qualquer momento e um novo desfecho pode ser dado àquelas questões que nos tiram o sono, que nos impedem de sermos nós mesmos ou nos limitam em nossas vivências e relações. Àquilo que nos entristece.
O que é perdoar e o valor do perdão têm uma conceituação diferente para cada sujeito. Como psicólogo, é preciso analisar cada pessoa em sua individualidade ímpar, o peso que têm sobre ela suas singularidades éticas, as concordâncias e divergências com os valores e critérios coletivos de julgamento, os determinadores inconscientes de seus funcionamentos e condutas. Feito isto, a assertiva em epígrafe de Martin Luther King - mais jovem recebedor de um prêmio Nobel da Paz - se torna efetiva: criadas as condições para um novo começo, o processo psicoterápico surtirá efeito e um novo sujeito perceberá o mundo com outros olhos. Que sejam olhos de esperança e de felicidade.

César A R de Oliveira
psicólogo 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O silêncio e a psicoterapia



“Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos.” (Lya Luft)


Como é importante termos um momento totalmente nosso. Na correria e competitividade do dia-a-dia fazemos de tudo pelos outros e por nosso trabalho, e, ao final, deixamos de realizar aquilo que havíamos planejado para nós mesmos. Quem já não acordou-se na madrugada, perdeu o sono, e sentiu-se invadido por uma série de problemas a serem resolvidos?
Refiro-me à frase de Lya Luft (supracitada) pois a mesma pode muito bem ilustrar uma sessão de psicoterapia. É no silêncio propício da reflexão que encontramos coisas por vezes mal resolvidas, não ditas, e que ao lhes darmos novos significados através da palavra passamos a enxergar outro ângulo de nós mesmos:  “Porque não pensei nisto antes? Porque não agi assim? Era óbvio!”.  E o quanto nos é caro admitir algo, admitir que poderia ter sido mais tolerante, que aquele grito teria sido dispensável, que o mau humor de nossa companheira (o) não era somente dela, mas era um reflexo nosso!
O psiquiatra Irvin Yalon em sua obra Quando Nietzsche chorou, relata um encontro fictício entre o filósofo e Joseph Breuer - médico com quem Freud estabeleceu forte aliança nos primórdios de suas teorias - de onde se podem extrair valiosas reflexões. Em uma passagem cita: “ Breuer se maravilhou com o poder de sedução do tratamento através da conversa (...) Era estimulante desabafar-se, compartilhar todos os seus piores segredos, contar com a atenção exclusiva de alguém que, na maior parte do tempo, entendia, aceitava e parecia até perdoá-lo. Muito embora algumas sessões o fizessem sentir-se pior, ele inexplicavelmente ansiava pela próxima.” 
Ora, se na atualidade, onde o sujeito social que somos (aquele que vive pelo e para o trabalho) constantemente sufoca o sujeito psíquico - o desejante que nos habita e que nos move em direção à vida – precisamos conjugar esforços e partir em direção ao equilíbrio capaz de nos assegurar uma plena Saúde Mental. E é possível associar saúde, estar bem, com felicidade.
E se a essência da vida é a busca pela felicidade, quem é capaz de ser feliz com seus medos e segredos a espezinhar a vida, a limitar as relações familiares, a não permitir uma decisão mais ousada no trabalho ou nas relações amorosas? É preciso primeiro enfrentar-se (e ao próprio silêncio) para estar melhor preparado para a vida. Não é vã a afirmação Socrática “Conhece-te a ti mesmo” como uma máxima filosofia de vida, todavia, é preciso muito exercício para nos vermos sob outro prisma.

César A R de Oliveira
Psicólogo
 

Timidez...

“A gente não pode ser aquele garoto tímido toda a vida. Tem que se dar um pouco mais, chegar perto do público sem aquela armadura toda.” Tom Jobim
Não raramente ouvimos de alguém, até mesmo de pessoas que trabalham para o público, assertivas em que se definem como tímidos, o que pode surpreender a alguns. Mas há uma diferença entre timidez e introversão: a primeira pode ser entendida como um sentimento de embaraço ou até mesmo de inibição em situações sociais, onde o sujeito prioriza a atenção mais para si mesmo do que para o que está acontecendo, preocupando-se com o que aqueles que estão à sua volta irão pensar sobre o que esteja fazendo ou dizendo, sobre seus sentimentos. Então ele veste uma armadura. Por outro lado, introversão é um comportamento daquele que prefere a solidão sem, no entanto, evitar situações de contato social. Por esta definição, algumas pessoas estariam mais para introvertidas do que, efetivamente, para tímidas.
Há um estudo recente realizado pela Universidade de Indiana nos Estados Unidos onde os sujeitos da pesquisa foram pessoas com perfil de timidez, donde se concluiu que 87% dos tímidos estão esforçando-se em superá-la através de um comportamento de “extroversão forçada”, ou seja, mediante o enfrentamento a locais públicos e a presença de outros. Desnecessário dizer que só vontade às vezes não é suficiente, alguns não conseguem a superação desta forma e então partem para outras estratégias, dentre as quais a leitura de material de auto-ajuda, a participação em seminários temáticos e alguns, para a terapia individual. Porém alguns poucos buscam encorajamento para as situações através do consumo de medicamentos não receitados, ou ainda, de drogas ou álcool, o que, por razões óbvias, não é o melhor caminho.
Um grande erro é pensar que timidez esteja associada à falta de forças, a passividade. Pessoas tímidas sofrem de uma forma leve de fobia social que consiste em uma dificuldade de se apresentar diante de público, de estranhos ou de contextos desconhecidos, não de falta de motivação. Se pensarmos na timidez como um sintoma, a pesquisa em referência identificou várias de suas causas, desde problemas de relações e de violência na família, separação dos pais, fatores psicofísicos (sentir-se magro, gordo, alto ou baixo demais), raciais e culturais, dentre outros.
Para um convívio social saudável, é importante sentir-se confortável em relação a si mesmo e às emoções das outras pessoas. Não raro, na vida adulta, somos obrigados a ouvir chefes, colegas de trabalho ou clientes estressados, o que, para uma pessoa tímida, suportar situações assim é extremamente difícil. Além disto, a timidez, que tem por característica a falta de comunicação (ou uma comunicação de baixa qualidade) pode ter implicações nas possibilidades de se conseguir emprego ou então na insatisfação no casamento ou na família, por não posicionar-se frente às situações. Isto implica em um adoecimento maior justamente por não expressar suas emoções, não verbalizar seus sentimentos.
E de que forma a timidez pode ser superada? Os melhores resultados advirão basicamente através da aceitação, muito mais do que pela mudança. Ser tímido não deve ser considerado por si só patológico, porém, colocar a responsabilidade das frustrações e dos insucessos “na costas” da timidez é acomodação pura! Outro traço característico do tímido é o elevado nível de ansiedade. Sabendo-se assim que elevados níveis de ansiedade afetam a fisiologia, é importante ficar atento aos sinais do corpo: sudorese, leves tremores, palpitações cardíacas, voz trêmula, a sensação de um corpo quase fora de controle. Agora, se é possível ficar nervoso por dar muita importância a estes sinais interpretando-os mal, também é verdade que é possível acalmar-se interpretando-os corretamente. Ficar ruborizado ao falar causa mais preocupação a quem fala do que aos que o escutam, pois esta vergonha (que sente o tímido) que resulta em “ficar avermelhado” é o que paralisa. Então, ao perceber-se com alterações no próprio corpo, respire fundo, induza-se ao relaxamento muscular, mova as articulações e concentre-se no momento, no aqui-agora, no ambiente, e não em si mesmo.
Tal como propõe Tom Jobim (em epígrafe), em algum momento será necessário que mudemos. Não é preciso esperar que as conseqüências negativas da timidez deixem-nos retraídos e sem que possamos aproveitar os prazeres da vida e os momentos de felicidades a que temos direito. Existem técnicas que podem ser os primeiros passos para a superação à timidez, mas o fundamental é conhecer-se.

César  A R de Oliveira – psicólogo