logo

logo

terça-feira, 3 de maio de 2011

Perdão e Psicologia Coexistem?



“O perdão é um catalisador que cria a ambiência necessária para uma nova partida, para um reinício”
Martin Luther King


É muito comum na cultura brasileira que a palavra perdão seja freqüentemente associada a um sentido religioso, o que está correto. Porém, de acordo com o Dicionário Aurélio, trata-se também de “...uma renúncia às conseqüências punitivas que se entendam justificáveis para transgressões a preceitos jurídicos, morais ou afetivos vigentes”. É sobre o aspecto afetivo do perdão que escrevo.
Em sua obra O poder do perdão (Ed. Novo Paradigma, 2002) o psicólogo americano Frederic Luskin realiza um estudo sobre a influência do perdão no bem estar e na saúde como um todo das pessoas. Em uma abordagem com bases e critérios científicos realizou pesquisas e experimentos inicialmente na Universidade Americana de Stanford e, posteriormente, em um projeto na Irlanda do Norte entre católicos e protestantes vítimas de violências atrozes decorrentes da crise política que assolou aquele País por mais de trinta anos. Mortes, torturas, desaparecimentos de pessoas queridas, humilhações físicas e morais desencadearam uma série de traumas psíquicos nos sujeitos da pesquisa. Em síntese, dos resultados do acompanhamento do seu projeto, algumas das conclusões foram as de que o aprendizado do perdão reduziu significativamente a quantidade de sintomas físicos (insônia, úlceras, gastrites, dores de cabeça entre outros) que o grupo sentia, promoveu melhoras na qualidade de vida e gerou novos posicionamentos de otimismo com relação ao futuro para muitos dos participantes.
A capacidade de perdoar pressupõe e amplia as possibilidades de escolha. Perdoar e perdoar-se andam juntos, requerem a renúncia das supostas onipotência e onisciência (uma espécie de orgulho) atribuídas a si próprio e ao outro. Perdoar-se por seus erros, numa dimensão justa, resulta do abandono das pretensões narcísicas geradoras de culpas, de necessidade de castigo e sentimentos de vergonha que chegam a aniquilar todo o ser. Perdoar, segundo alguns autores, “é despregar-se qualitativamente do passado”. Todavia perdoar não é esquecer, é também aceitar o passado como passado - que não pode ser desfeito - mas que pode se tornar mais leve, como acontece em todo processo de luto. Perdoar requer ainda alguma superação do ressentimento revanchista, o que só se faz com esforço e tempo, não pelo atalho de um impulso súbito.
Porém, abrir mão do lugar de eterna vítima acarreta o risco de reconhecer os próprios erros, os malefícios cometidos contra outros e não se perdoar. É no trabalho psicoterápico que se encontrará amparo para a avaliação desta condição. O filósofo Sartre diz que somos os autores de nós mesmos, desta forma, o roteiro que traçamos para nossas vidas pode ser reescrito a qualquer momento e um novo desfecho pode ser dado àquelas questões que nos tiram o sono, que nos impedem de sermos nós mesmos ou nos limitam em nossas vivências e relações. Àquilo que nos entristece.
O que é perdoar e o valor do perdão têm uma conceituação diferente para cada sujeito. Como psicólogo, é preciso analisar cada pessoa em sua individualidade ímpar, o peso que têm sobre ela suas singularidades éticas, as concordâncias e divergências com os valores e critérios coletivos de julgamento, os determinadores inconscientes de seus funcionamentos e condutas. Feito isto, a assertiva em epígrafe de Martin Luther King - mais jovem recebedor de um prêmio Nobel da Paz - se torna efetiva: criadas as condições para um novo começo, o processo psicoterápico surtirá efeito e um novo sujeito perceberá o mundo com outros olhos. Que sejam olhos de esperança e de felicidade.

César A R de Oliveira
psicólogo 

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O silêncio e a psicoterapia



“Quando nada se move nem faz barulho, notamos as frestas pelas quais nos espiam coisas incômodas e mal resolvidas, ou se enxerga outro ângulo de nós mesmos.” (Lya Luft)


Como é importante termos um momento totalmente nosso. Na correria e competitividade do dia-a-dia fazemos de tudo pelos outros e por nosso trabalho, e, ao final, deixamos de realizar aquilo que havíamos planejado para nós mesmos. Quem já não acordou-se na madrugada, perdeu o sono, e sentiu-se invadido por uma série de problemas a serem resolvidos?
Refiro-me à frase de Lya Luft (supracitada) pois a mesma pode muito bem ilustrar uma sessão de psicoterapia. É no silêncio propício da reflexão que encontramos coisas por vezes mal resolvidas, não ditas, e que ao lhes darmos novos significados através da palavra passamos a enxergar outro ângulo de nós mesmos:  “Porque não pensei nisto antes? Porque não agi assim? Era óbvio!”.  E o quanto nos é caro admitir algo, admitir que poderia ter sido mais tolerante, que aquele grito teria sido dispensável, que o mau humor de nossa companheira (o) não era somente dela, mas era um reflexo nosso!
O psiquiatra Irvin Yalon em sua obra Quando Nietzsche chorou, relata um encontro fictício entre o filósofo e Joseph Breuer - médico com quem Freud estabeleceu forte aliança nos primórdios de suas teorias - de onde se podem extrair valiosas reflexões. Em uma passagem cita: “ Breuer se maravilhou com o poder de sedução do tratamento através da conversa (...) Era estimulante desabafar-se, compartilhar todos os seus piores segredos, contar com a atenção exclusiva de alguém que, na maior parte do tempo, entendia, aceitava e parecia até perdoá-lo. Muito embora algumas sessões o fizessem sentir-se pior, ele inexplicavelmente ansiava pela próxima.” 
Ora, se na atualidade, onde o sujeito social que somos (aquele que vive pelo e para o trabalho) constantemente sufoca o sujeito psíquico - o desejante que nos habita e que nos move em direção à vida – precisamos conjugar esforços e partir em direção ao equilíbrio capaz de nos assegurar uma plena Saúde Mental. E é possível associar saúde, estar bem, com felicidade.
E se a essência da vida é a busca pela felicidade, quem é capaz de ser feliz com seus medos e segredos a espezinhar a vida, a limitar as relações familiares, a não permitir uma decisão mais ousada no trabalho ou nas relações amorosas? É preciso primeiro enfrentar-se (e ao próprio silêncio) para estar melhor preparado para a vida. Não é vã a afirmação Socrática “Conhece-te a ti mesmo” como uma máxima filosofia de vida, todavia, é preciso muito exercício para nos vermos sob outro prisma.

César A R de Oliveira
Psicólogo
 

Timidez...

“A gente não pode ser aquele garoto tímido toda a vida. Tem que se dar um pouco mais, chegar perto do público sem aquela armadura toda.” Tom Jobim
Não raramente ouvimos de alguém, até mesmo de pessoas que trabalham para o público, assertivas em que se definem como tímidos, o que pode surpreender a alguns. Mas há uma diferença entre timidez e introversão: a primeira pode ser entendida como um sentimento de embaraço ou até mesmo de inibição em situações sociais, onde o sujeito prioriza a atenção mais para si mesmo do que para o que está acontecendo, preocupando-se com o que aqueles que estão à sua volta irão pensar sobre o que esteja fazendo ou dizendo, sobre seus sentimentos. Então ele veste uma armadura. Por outro lado, introversão é um comportamento daquele que prefere a solidão sem, no entanto, evitar situações de contato social. Por esta definição, algumas pessoas estariam mais para introvertidas do que, efetivamente, para tímidas.
Há um estudo recente realizado pela Universidade de Indiana nos Estados Unidos onde os sujeitos da pesquisa foram pessoas com perfil de timidez, donde se concluiu que 87% dos tímidos estão esforçando-se em superá-la através de um comportamento de “extroversão forçada”, ou seja, mediante o enfrentamento a locais públicos e a presença de outros. Desnecessário dizer que só vontade às vezes não é suficiente, alguns não conseguem a superação desta forma e então partem para outras estratégias, dentre as quais a leitura de material de auto-ajuda, a participação em seminários temáticos e alguns, para a terapia individual. Porém alguns poucos buscam encorajamento para as situações através do consumo de medicamentos não receitados, ou ainda, de drogas ou álcool, o que, por razões óbvias, não é o melhor caminho.
Um grande erro é pensar que timidez esteja associada à falta de forças, a passividade. Pessoas tímidas sofrem de uma forma leve de fobia social que consiste em uma dificuldade de se apresentar diante de público, de estranhos ou de contextos desconhecidos, não de falta de motivação. Se pensarmos na timidez como um sintoma, a pesquisa em referência identificou várias de suas causas, desde problemas de relações e de violência na família, separação dos pais, fatores psicofísicos (sentir-se magro, gordo, alto ou baixo demais), raciais e culturais, dentre outros.
Para um convívio social saudável, é importante sentir-se confortável em relação a si mesmo e às emoções das outras pessoas. Não raro, na vida adulta, somos obrigados a ouvir chefes, colegas de trabalho ou clientes estressados, o que, para uma pessoa tímida, suportar situações assim é extremamente difícil. Além disto, a timidez, que tem por característica a falta de comunicação (ou uma comunicação de baixa qualidade) pode ter implicações nas possibilidades de se conseguir emprego ou então na insatisfação no casamento ou na família, por não posicionar-se frente às situações. Isto implica em um adoecimento maior justamente por não expressar suas emoções, não verbalizar seus sentimentos.
E de que forma a timidez pode ser superada? Os melhores resultados advirão basicamente através da aceitação, muito mais do que pela mudança. Ser tímido não deve ser considerado por si só patológico, porém, colocar a responsabilidade das frustrações e dos insucessos “na costas” da timidez é acomodação pura! Outro traço característico do tímido é o elevado nível de ansiedade. Sabendo-se assim que elevados níveis de ansiedade afetam a fisiologia, é importante ficar atento aos sinais do corpo: sudorese, leves tremores, palpitações cardíacas, voz trêmula, a sensação de um corpo quase fora de controle. Agora, se é possível ficar nervoso por dar muita importância a estes sinais interpretando-os mal, também é verdade que é possível acalmar-se interpretando-os corretamente. Ficar ruborizado ao falar causa mais preocupação a quem fala do que aos que o escutam, pois esta vergonha (que sente o tímido) que resulta em “ficar avermelhado” é o que paralisa. Então, ao perceber-se com alterações no próprio corpo, respire fundo, induza-se ao relaxamento muscular, mova as articulações e concentre-se no momento, no aqui-agora, no ambiente, e não em si mesmo.
Tal como propõe Tom Jobim (em epígrafe), em algum momento será necessário que mudemos. Não é preciso esperar que as conseqüências negativas da timidez deixem-nos retraídos e sem que possamos aproveitar os prazeres da vida e os momentos de felicidades a que temos direito. Existem técnicas que podem ser os primeiros passos para a superação à timidez, mas o fundamental é conhecer-se.

César  A R de Oliveira – psicólogo

quinta-feira, 17 de março de 2011

Viver muito. Com qualidade.

“A velhice é um causo sério, que o tempo
nos conta, sem rir..”  César Passarinho

O V Fórum da Longevidade ocorrido no mês de agosto em São Paulo - promovido por uma respeitável e reconhecida instituição privada - retomou vários conteúdos que dizem respeito ao envelhecimento no Brasil e no mundo. Estimamos hoje que 10% da população brasileira esteja com idade acima de 60 anos, mas a próxima geração (dentro de 30/40 anos) contará com aproximadamente 30% de uma população envelhecida. Muitos dos que leem este artigo poderão futuramente estar na condição dos mais velhos, ou, pelo menos, terão pais, tios ou amigos idosos e longevos, o que implicará em necessárias mudanças em suas vidas. Daí a epígrafe: isto é um causo sério!
Está no Japão, na ilha de Okinawa, o lugar onde as pessoas vivem por muito mais tempo: nos últimos 40 anos a população com mais de 100 anos aumentou em 30 vezes. E sabem ao que os estudos atribuem para a longevidade daqueles centenários? Alimentação, trabalho, família, religiosidade e alegria de viver. Agora, transportando para nossa realidade, como estamos nestes itens? Não se trata de pregar uma dieta de rigores, mas sim de equilíbrio. Sempre que possível, refeições feitas entre família e sem correrias causam um bem estar e servem como um momento de re-encontro. Com relação ao trabalho, é importante a dedicação, mas nunca maior do que a necessária, procurando encontrar (o máximo possível) a sensação de utilidade, de que se esteja servindo a alguém ou a um objetivo. Daquelas conclusões, buscar que se propicie tempo para suas relações afetivas, sejam elas em família ou em grupos sociais e que se adquiram hábitos onde sua religiosidade (não confundir com dogmatismo) possa ser exercida. De tudo isto, a alegria de viver encontrada por eles, naturalmente poderá surgir como um resultado de ações. É do filósofo romano Sêneca a afirmação (a mais de dois mil anos) de que o homem tem maior preocupação em viver muito, quando o que poderia depender dele seriam esforços para viver bem, com mais qualidade.
Há uma cartilha do Sest Senat intitulada “Viva a melhor Idade” que conclui no mesmo sentido dizendo que a qualidade de vida na terceira idade é influenciada por diversos fatores, entre eles “... os fatores físicos, psicológicos, sociais e culturais”. Chamo a atenção de que, em todos estes, cabem unicamente a cada um a decisão de suas próprias intervenções. Devemos repensar sobre o quanto de investimentos estamos fazendo em nós mesmos para uma melhor qualidade de vida.


César AR de Oliveira – psicólogo

quarta-feira, 9 de março de 2011

Dependência de jogos na Internet

“O organismo de um viciado em jogos de computador reage de maneira parecida ao de um viciado em drogas como crack ou cocaína.(...) Isso faz o viciado querer passar o tempo todo jogando” – Daniel Spritzer, psiquiatra UFRGS

Não há exageros na afirmação supracitada, pois o que está em comparação é a dependência psíquica de jogos virtuais e não os malefícios decorrentes do tipo de droga utilizada. A dificuldade do diagnóstico está em razão de que, no caso de filhos, os pais preferem tê-los em casa em frente a um computador a estar nas ruas expostos à violência e todos os riscos inerentes, enquanto que a dependência dos adultos fica disfarçada sob a forma de diversão. A reclamação, quando há, é a de que os filhos permanecem muito tempo utilizando o computador, mas os pais não vêem isto como um problema que necessite de tratamento, enquanto que com o adulto, caracterizam-se problemas de rendimento no trabalho ou nos estudos e de relacionamentos, além de dificuldades financeiras que começam a acentuar-se.
Embora o computador seja um equipamento recente no uso doméstico, cada vez mais torna-se acessível, e, se ainda não está como os televisores na maioria dos lares brasileiros, está ao alcance nas lan houses (termo sem tradução ao português) a preços tão acessíveis quanto ao custo de um refrigerante. Muito embora tenhamos visto esforços da polícia no combate a casas de jogos (bingos, caça-níqueis e similares) a compulsão pelo jogo não está baseada unicamente na premissa de ganhar dinheiro e, o mais importante, computadores estão em casa, no trabalho, nas escolas e em muitos outros locais distantes da polícia. As pessoas dependentes de jogos são tomadas de Transtorno Obsessivo Compulsivo e podem estar jogando sem a necessidade de apostar dinheiro, mas que dificilmente sem algum tipo de ajuda conseguirão parar.
Mas o que pode haver de problemas se o jogo se dá em casa e não implica em apostas? Bem, há que se considerar que alguém que tenha uma predisposição para o jogo poderá fazê-lo sob a forma de apostas quando tiver oportunidade. É sabido que na ilegalidade existem apostas virtuais no mundo todo e sob as mais variadas formas, inclusive pagáveis em cartões de crédito pela internet. Recentemente no Brasil foram flagradas apostas em brigas de lutas-livres (as quais eram transmitidas para o mundo todo) e na Europa em jogos de tênis, onde pairou a suspeita sobre manipulação de resultados das partidas. Não obstante, se a compulsão se dá pela utilização de lan houses, o jogador/dependente poderá ficar exposto ao assédio de terceiros, ao consumo de bebidas alcoólicas e, em algumas situações até mesmo de entorpecentes. Um adolescente que desvia sua mesada para pagar pelo uso de computadores, ou, que não tendo dinheiro para tal, vai, como no mundo das drogas, encontrar outras formas de obter recursos
Esta dependência é tão relevante que nos Estado Unidos as Universidades de Harvard e Yale têm departamentos específicos para o tratamento deste tipo de paciente, além de estudos e pesquisas que auxiliam na compreensão do fenômeno. Na Europa alguns países já desenvolvem atendimento psicológico para este tipo de dependência, enquanto que no Brasil o Hospital das Clínicas de São Paulo dispõe do projeto Dependentes de Internet, o Instituto de Psiquiatria da USP e a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro prestam atendimentos e grupos de apoio, para citar alguns exemplos. Estima-se que aproximadamente 500 mil pessoas sejam dependentes de jogos pela internet só no Brasil.
Considerando que tal compulsão pode atingir tanto aos filhos como aos adultos da casa, é recomendável que se observem alguns comportamentos: Qual o tempo de permanência destes frente a computadores ou se o dia gira em torno do computador e só fala sobre internet; se vem aumentando o tempo que permanece frente ao computador ou se mente sobre isto; se tenta diminuir a freqüência com que joga mas não consegue; se apresenta depressão; se não se alimenta bem, não faz higiene pessoal, tem olhos secos, enxaqueca e insônia, além de, se sente irritação quando não pode usar o computador; se não tem amigos, vida social e profissional, ou se tem problemas na escola ou no trabalho.
Caso alguns destes comportamentos sejam observados procure ajuda profissional, uma vez que em tratando-se de uma compulsão ao jogo, poderemos estar diante de um quadro clínico que precise de intervenção.

César AR de Oliveira - Psicólogo

terça-feira, 1 de março de 2011

Quando as mulheres bebem...

“ Não tire da minha mão esse copo
Não pense em mim quando eu calo de dor
Olha meus olhos repletos de ânsia e de amor ”
 (Ângela Ro-Rô)

Por muito tempo alcoolismo foi considerado como um problema de homem, uma falha moral, um problema social e depreciativo onde o alcoólatra transitava entre o vagabundo, o mendigo, o pecador, ou mesmo, para as classes mais altas, o membro decaído da sociedade. Em que pesem esforços desde o início do século passado, o alcoolismo sequer era tratado como doença, o que aconteceu somente a partir de 1951 quando a Organização Mundial de Saúde o reconheceu oficialmente como uma enfermidade.
Aparentemente um problema masculino, hoje, a preocupação chega também às mulheres. Várias considerações podem ser formuladas para isto: sob aspecto biológico, as mulheres têm no estômago um menor número de enzimas chamadas álcool desidrogenase, um menor peso (se comparadas aos homens) e, conseqüentemente, menor índice de água no corpo, o que contribui para que fiquem mais rapidamente embriagadas. Dentre os aspectos psicológicos e sociais, destacam-se a necessidade de beber para melhor trabalhar ou conviver em sociedade, para compensar “ausências”, problemas financeiros, crises familiares, aliviar tensões e ansiedades, livrar-se do tédio ou da fadiga, enfim, liberar sentimentos ou vários outros pretextos.
Em que pesem as constantes mudanças de valores sociais, ficar embriagado em público, ainda é mais tolerável aos homens, pois álcool e virilidade, culturalmente, andam juntos. A mulher que bebe em excesso recebe mais críticas e só é tolerável se for jovem e atraente (objeto sexual fácil, inofensivo e irresponsável), pois a mulher que começa a falar mais alto, chamar a atenção e tornar-se agressiva e escandalosa, é inaceitável. Permanece a mensagem velada de que é possível às mulheres beberem, desde que não fiquem embriagadas. Que o digam Paris Hilton, Naomi Campbell, Lindsay Lohan para não estender a lista e nem chegarmos às compatriotas.
Na obra “O alcoolismo e as mulheres“ (Cultrix, 2003), a psicóloga Jan Bauer relata várias possibilidades de abordagens às dependentes, passando pela ótica moral até os antigos e modernos modelos médicos e psicológicos. Sua conclusão é a de que quando é reconhecido o alcoolismo feminino as mulheres passam por mais imorais, mais frágeis e mais doentes (dependentes) do que os homens. O sofrimento da mulher que bebe transcende a si e acaba sendo vivido também pela família. Se aumentada sua dimensão, passa a trazer transtornos sociais, legais, no trabalho e em qualquer relação, além de implicações na sua saúde. Quadros depressivos, sentimento de não ser compreendida, desânimo, baixa-estima, irritabilidade, falta de apetite e conseqüente perda de peso, além de uma série de implicações orgânicas, são apenas alguns sintomas decorrente do alcoolismo.
Há um estigma social muito forte sobre o reconhecimento do alcoolismo em mulheres, então, é comum que famílias neguem a existência de casos, principalmente se convencidas pela dependente (que também reage com negação) de que a mesma bebe “apenas socialmente”. Sempre é tempo de buscar um tratamento, um auxílio profissional, uma possibilidade de recuperar a vida. Hoje, nos EUA, cerca de 1/3 de membros dos Alcoólicos Anônimos é de mulheres.
Com relação à citação em epígrafe, rendo homenagem à cantora e compositora Ângela Ro-Rô, a qual, depois de muitos problemas por causa da bebida, encontra-se reabilitada, compondo, cantando, com um leve problema de saúde, mas, de bem com a vida. É possível uma vida boa sem os excessos da bebida.
César AR de Oliveira
Psicólogo

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Estresse de Professores

“Em geral, as pessoas têm medo de confessar que não estão bem,  
porque isso pode significar confessar incompetência”
Eliana Moura, pesquisadora -Feevale
Uma pessoa que é referência no Brasil quando se aborda assuntos relativos a estresse é a psicóloga Ana Maria Rossi, a qual é presidente da ISMA, International Stress Management Association (uma associação internacional para estudos, pesquisa e desenvolvimento da prevenção do estresse) e que recentemente organizou em Porto Alegre um encontro internacional sobre o tema. Em outra ocasião, o Sindicato dos Professores do RS solicitou uma pesquisa a esta associação sobre qual o nível de estresse dos professores gaúchos, e, grosso modo, em um dos resultados, 45,8% da categoria considerou-se estressada. Mas o que entendemos por estresse? Academicamente há duas definições: uma de caráter salutar (eustresse) e outra prejudicial à saúde (distresse), a qual é a forma mais referida quando se aborda a questão. Então, culturalmente, quando se fala de estresse as pessoas o associam à sua forma negativa, na qual começam a surgir sintomas como dores de cabeça e nas costas, suor nas mãos, insônia, perda de foco e de libido, por exemplo.
Há uma exigência social demasiada com relação ao papel dos professores, cobranças que às vezes são injustas na medida em que se esperam providências ou procedimentos que não lhes caberiam, ao mesmo tempo em que por parte destes há uma queixa da falta de envolvimento dos pais na vida escolar de seus filhos. Neste interjogo de expectativas e frustrações, de sobrecargas de jornadas de trabalhos, às vezes divididos entre escolas da rede pública ou privada onde se tenta conciliar interesses pessoais, surge o adoecimento laboral e uma tensão constante que leva o estresse a se tornar crônico. “Nesse estágio, podem aparecer problemas emocionais, hipertensão, úlceras, gastrites, fadiga crônica, diabetes e alterações no sono, dentre outras manifestações”, explica Ana Maria Rossi.
O que muitos professores deveriam considerar, é que os problemas que se manifestam no corpo como falta de voz, dores de coluna, de cabeça, pressão arterial elevada dentre outros, são decorrentes da atividade laboral, mas que poderiam ser minimizados se mantidos o equilíbrio físico e mental. Em um levantamento realizado entre professores de nível universitário em Minas Gerais apurou-se que 48,6 % fazem uso de automedicação como forma de solucionar seus problemas, e ainda, que há aqueles – somados a estes ou não - que recorrem também ao consumo de bebidas alcoólicas como paliativo. Ambas as medidas são notoriamente abomináveis e não servem como solução. Medidas estruturais dos sistemas de ensino, melhores condições de trabalho, de remuneração e de credibilidade aos professores seriam basilares para a provocação de mudanças neste quadro. Dentre o que poderiam os professores fazer para minimizar os efeitos negativos do estresse, é o que sempre se recomenda a uma vida saudável e de melhor qualidade: a prática regular de atividades físicas não competitivas, alimentação adequada (no caso específico habituar-se a tomar muita água e evitar o cafezinho e os cigarros), buscar um sono reparador e um convívio social que inclua também pessoas de outras atividades profissionais.
São muitos os sentimentos de um professor adoecido, e alguns o levam a negar a si mesmo sua fragilização, passando a trabalhar de qualquer jeito. A negação, como mecanismo de defesa psíquica, acaba sendo extremamente prejudicial na medida em que os professores vão desconsiderando pequenos avisos de estresse, assim, somente com um “apagão” (burn out) é que deparam-se com as limitações da doença.
Porém hoje, quando as afecções de saúde mental (estresse, depressão, fobias sociais, p.ex.) que atingem milhares de pessoas em todo o mundo passam por um processo de maior reconhecimento, o momento é o de poder se abrir para a compreensão de que doença ocupacional não é um fracasso individual, mas resultado de um processo coletivo e que necessita de uma discussão na própria categoria e no corpo dissente.
Aos professores, cuja data oficial se deu neste mês de outubro, o meu reconhecimento, pois diariamente nos damos ao trato da leitura e da escrita sem sequer nos darmos conta de que se o fazemos, é porque um dia nos ensinaram.

César AR de Oliveira – psicólogo