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quarta-feira, 20 de março de 2013

Nosso Espelho Interior


“Geralmente, temos muito cuidado e zelo com nosso corpo. Nós o lavamos e limpamos quando está sujo e cheirando mal. Às vezes, nós o enfeitamos e perfumamos com fragrâncias caríssimas. Mas que cuidado temos com a nossa mente?” - Ênio Burgos, médico 

Em meio a tantas obras literárias, resolvi comentar algo de um livro chamado “Medicina Interior – a medicina do coração e da mente” (Ed. Bodigaya, 2006) de autoria de Ênio Burgos, médico, físico, escritor e compositor gaúcho, que nos leva em sua obra a questionamentos e reflexões fundamentais sobre a existência humana e que continuam na atualidade a inquietar nossos pensamentos, mesmo frente a toda a modernidade.
Pela epígrafe, antevê-se a importância que as mais diversas culturas dão ao corpo físico, o biológico e aparente que nos mostra aos outros. O pensamento cartesiano apresentou à ciência um ser humano cindido, dividido entre “corpo e mente”, conceito que é naturalmente aceito até os dias de hoje muito embora seja impossível e existência saudável e única de um ou de outro. Ora, se corpo e mente são interdependentes (literalmente dependem entre si) é necessário que ao pensarmos em nossa saúde o façamos através de uma ótica integral, holística, afinal, padecer de uma doença “apenas” do corpo físico ou da mente minimizaria nosso sofrimento?
Em nossa cultura, em muitos momentos vemos a morte representada por uma figura de preto, encapuzada e que normalmente oculta sua face e empunha uma foice com o propósito de ceifar vidas. Para algumas culturas orientais, a morte é representada pelo mito do deus Yama, o qual carrega em suas mãos um espelho, cuja finalidade é a de refletir a mente da pessoa que morreu, uma vez que o corpo já não existiria mais. E, diz a lenda, o destino daquela alma será uma conseqüência daquilo que aparecer no espelho.
Bem, espelho para mirarmos nosso corpo físico e nos mostrar nossa aparência todo mundo conhece, mas, e se existisse um espelho para mostrar nossa alma, nossa vida interior, o que mostraria? É através da mitologia grega que Freud estrutura seu conceito sobre narcisismo, uma espécie de amor próprio que nos constitui na infância e nos acompanha por toda a existência e que pode nos oportunizar aspectos de uma vida saudável, ou então, ensejar possibilidades de uma forma de vida doentia. E o mito de Narciso surge do ato de aquele jovem ficar mirando-se em seu reflexo sobre a água, encantando-se com o que via. Porém se tivéssemos - ainda que por um instante - em nossas mãos o espelho de Yama, gostaríamos do que veríamos? Como está nosso trato, nossa atenção para com nossa saúde? Como lidamos com nossas emoções? Temos paciência, tolerância, quando necessário? Veríamos gestos de amor ao próximo na mesma proporção de amor-próprio?
A vida nos alcança em alguns momentos o espelho de Yama, basta que nos apercebamos. Acontece que aquelas pessoas que estão mais preocupadas com o mundo externo (este que pode ser visto no reflexo de um espelho comum) deixam de lado oportunidades para uma introspecção ou de dedicarem um tempo a si mesmo, e, habituadas, conseguem apenas olhar para fora enxergando somente aparências. O olhar ao espelho de Yama é algo pessoal, per si, não podendo ser delegado a outra pessoa. Quem tentar olhar a mim verá apenas aquilo que os seus olhos mostrarem, enquanto que eu verei meu próprio Eu, a essência, o meu Ser.
A sabedoria popular nos diz que se quebrarmos um espelho teremos sete anos de azar, porém, a maior qualidade deste espelho interior é a de que seja indestrutível. Isto nos assegura que não podemos optar por quebrá-lo como forma de fugirmos a algo que não gostaríamos de ver, pelo contrário, ao invés de um castigo finito em sete anos, somos obrigados a carregá-lo por toda a vida para que possa refletir, no momento do derradeiro, nossa vida.
É oportuno que consideremos por um instante o mito do deus Yama como possibilidade, isto nos auxiliaria a amadurecermos e darmos novos cursos à nossa vida, pois sempre é tempo de buscarmos nosso aperfeiçoamento moral e espiritual.
César A R de Oliveira – psicólogo

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

Nossa, já estamos no final de novembro!





 “O tempo passa, e com ele caminhamos todos juntos, sem parar...” Os Incríveis

Não se assuste: muitas pessoas já devem ter constatado isto e feito tal exclamação, e outras ainda a farão brevemente. O fato é que a noção de tempo é subjetiva e a convenção entre horas e minutos não são percebidas igualmente. Há muitas coisas escritas sobre isto, e há quem diga que a rotina é a principal responsável, pois quando entramos em um estado de automatismo (dirigindo e fazendo outras coisas sem a devida atenção, por exemplo) não vemos o tempo passar.   
Nesta linha, para quem está impactado com mais uma chegada de final de ano, sugiro que questione-se sobre o quanto de rotina tem em sua vida. Toda a vez que fazemos algo novo, diferente, nosso cérebro nos exige uma maior atenção pois está em pleno processo de aprendizagem, o que envolve uma série de estímulos sensoriais e emocionais. Lembre-se sobre como foi quando começou a dirigir, a andar de bicicleta e então observe como faz isto hoje. Há quem diga que quando fazemos as coisas de forma repetida, sem pensar ou sem grande concentração, tais experiências não passam por uma etapa mental e então, após executadas, são rapidamente apagadas de nossa memória. Desta forma, aos saltos, nos encontramos no final de um dia.
O antídoto está em buscar novas situações ou em aguçarmos nossa percepção para aquilo que estamos fazendo. Se por um lado a rotina nos dá muita agilidade e facilidade na execução de algumas coisas, ela nos rouba o sabor de experienciarmos novidades, e é para isto que devemos agir. Buscar fazer e conhecer coisas novas, mudar de itinerário em nossos deslocamentos, trocar um corte de cabelo, a maneira de nos vestirmos, sermos criativos. Invertamos cada dia e cada instante podem ser excelentes inovações para saborearmos melhor o momento.
O Frei Leonardo Boff escreveu um artigo sobre a Ressonância Schumann baseado na teoria do físico alemão W O Schumann, de que a terra é cercada por um campo eletromagnético e isto faz com que os seres vivos pulsem a uma frequência mensurável de 7,83 hertz. Diz ainda que com um acréscimo ocorrido nesta medida (causados por má gestão humana na Terra) estaríamos na atualidade sob a influência de uma pulsação em torno de 10 hertz, sendo isto o responsável pelos desequilíbrios ecológicos e pela rapidez com que as coisas acontecem, fazendo com que o homem apresse o seu ritmo e assim o tempo flua mais rapidamente. Não seria uma mera impressão pois os dias, com esta frequência alterada, estariam durando atualmente o equivalente a um dia de 16 horas de outras épocas.
É claro que sempre que uma teoria quebra os paradigmas vigentes o rechaçamento é inevitável. A humanidade reagiu assim contra o heliocentrismo, para com a teoria da relatividade e com muitos conceitos modernos da física quântica. Teoria ou não, a Ressonância Schumann serve de reflexão, pois todos nós em algum momento nos surpreendemos com a agilidade dos ponteiros (ou dígitos) de um relógio. Resta então, ante uma luta perdida contra o avanço do tempo, nos darmos conta de que somos os autores de nossas vidas. Uma boa observação sobre nossas atitudes rotineiras pode nos fazer voltar o olhar para aquilo que não conseguimos ver mesmo estando muito próximos. Se por um instante acreditarmos que nosso dia poderia durar cerca de 16 horas, imaginemos como faríamos para nos ajustarmos a ele sem correrias, deixando o supérfluo para depois, como forma de aproveitarmos melhor nossas vidas.   



César AR de Oliveira – psicólogo

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Para quê tanta pressa?




“Ando devagar porque já tive pressa, e levo este sorriso, porque já chorei demais...” Almir Sater  

Tocando em frente é o nome da composição de Renato Teixeira musicada pelo Almir Sater que sugere o texto em epígrafe e que induz a reflexões.
A mais de dez anos há um movimento internacional - cujo ícone muito bem escolhido é um caracol – chamado Slow Food e que se opõe como forma de reação aos fast food (lanches rápidos) tão bem identificados com a cultura norteamericana. Há argumentos de sobra para sua existência, uma vez que as decorrências de uma alimentação inadequada geram preocupações governamentais para os EUA com relação à saúde de seu povo, chegando a certo momento ao absurdo prognóstico de que uma geração inteira de filhos pode ter longevidade menor do que a de seus pais como consequência de seus maus hábitos alimentares. Por ações antecipadas, felizmente, este quadro está mudando.
Transpondo tal preocupação para nossa realidade e com a indagação de sobre como estamos nos alimentando, mais do que escrever a respeito de aspectos nutricionais, quero me referir ao poder das reuniões familiares propiciadas em torno de uma mesa. Ainda, como moradores de cidade do interior do estado, temos muitas pessoas almoçando em suas residências durante a semana, o que não quer dizer que sejam poucos os que o façam fora. Na área central de Passo Fundo há muitos restaurantes oferecendo almoços a baixo custo, o que, se somado aos gastos em transporte de ida e vinda para casa e mais o tempo que isto ocupa naquele intervalo, acaba sendo atrativo para que se almoce longe da família. De menores custos mas igualmente opositores aos almoços familiares estão os lanches rápidos.
Estudos indicam que o almoço ou um jantar em família têm sido relacionados a uma maior satisfação conjugal, melhor senso de identidade pessoal por parte dos adolescentes, maior saúde de crianças, satisfação com o desempenho escolar ou de trabalho e fortalecimentos das relações familiares, por exemplo. Uma família que almoce três dias da semana reunida poderá ter ficado pelo menos uma hora em convívio e tratando de seus assuntos, além de muito provavelmente ter algum ganho em aspectos relacionados à qualidade nutricional da alimentação, sempre melhor quando feita desta forma e que acabam tornando-se hábitos saudáveis para todos.     
Na mesma linha, a importante revista Archives of Pediatrics and Adolescent Medicine publicou recentemente um estudo com quase cinco mil crianças/adolescentes de 11 a 18 anos de idade mostrando que as refeições em família frequentemente são associadas a um menor risco do desenvolvimento do hábito de fumar, beber e usar maconha, entre os jovens. Tal estudo indicou também uma menor incidência de sintomas de depressão e pensamentos suicidas, além de notas mais altas na escola. Vários são os benefícios de quando se tem uma família reunida e disposta ao diálogo, e os instantes das refeições, bem aproveitados, servem para isto também.
Quanto ao movimento Slow food, o mesmo tem como seus propósitos o da preservação da biodiversidade e também o de desenvolver o prazer do gosto por comer. Muitas pessoas acabam, por uma pressa geralmente inexplicável, engolindo e não saboreando sua comida. Assim, perdem de apreciar os sabores da vida, e, num trocadilho inteligente da música de Sater, deixam de diferenciar “o sabor das massas e das maçãs...”. Ao simpatizarmos ao movimento Slow food, e, conciliando a este o prazer de reunir a família em torno de uma refeição, teremos benefícios que transcendem o simples aspecto de parar para comer. Estaremos dando maior qualidade de vida a nós mesmos e àqueles que amamos.
 

César AR de Oliveira – psicólogo

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Tabagismo e Personalidade


“...uma vez conhecendo a personalidade dos usuários* (*tabagistas), após um atendimento individual, ou com base em dados de literatura, o terapeuta pode direcionar um aconselhamento clínico específico para cada indivíduo." Ricardo Gorayeb, professor da Universidade de São Paulo -USP

Na última quarta feira, no mundo todo, o tabagismo ganhou destaque por se tratar do Dia Internacional de Combate ao Fumo. Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam para uma prevalência de consumo que varia de continente para continente, mas, em termos gerais, aproximadamente 20% da população mundial é tabagista.
Em nossa cultura, ainda que considerado um atentado à saúde própria e comprovadamente aos que convivem com um dependente (fumantes passivos), o tabagismo goza de legalidade, muito embora Leis estaduais, municipais ou atos administrativos cerceiem cada vez mais o hábito. Mesmo que os prejuízos à saúde do corpo como câncer, enfizema pulmonar, envelhecimento da pele e tantos outros sejam enfaticamente abordados, há, para a psicologia – e não menos importante - o sofrimento psíquico da dependência.
Há um estudo feito na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (USP) o qual indica que apesar de a literatura mostrar que cerca de 70% dos fumantes afirmam querer parar de fumar, poucos conseguem: a maior parte precisa de cinco a sete tentativas antes de definitivamente largar o cigarro. Mas o que os prende ao vício? A dependência à nicotina, possivelmente, pois esta é uma desordem complexa e difícil de ser superada, porém não é intransponível. A motivação para deixar o hábito é um dos fatores mais importantes na cessação do tabagismo e está implicada a uma gama de variáveis hereditárias, fisiológicas, ambientais e psicológicas. Ou seja, o primeiro passo é querer.
Outro estudo publicado no Jornal Brasileiro de Pneumologia de autoria de três professores doutores na área da saúde, destaca que algumas características de personalidade dos fumantes agem como obstáculos à cessação do tabagismo. O fato é que fumantes não constituem um grupo homogêneo e as pessoas têm diferentes razões ou motivos para fumar, além disto, algumas podem ser influenciadas simultaneamente por variáveis individuais e fatores situacionais.  O estudo aponta ainda que duas classes de situações parecem desencadear o desejo de fumar: uma delas consiste em situações entediantes, que produzem necessidade de aumentar a estimulação cortical enquanto que a outra seria produzida por estresse. Tanto o tédio quanto o estresse devem ser analisados durante o processo terapêutico.
Ao considerarmos aspectos da personalidade e suas relações com o tabagismo, fica óbvio que um paciente com ansiedade elevada requer uma abordagem diferenciada da de um depressivo, já que a síndrome de abstinência causada pela falta da nicotina (possivelmente a maior causa da manutenção do vício) terá a intensidade dos sintomas variados em intensidade para cada um. O malestar gerado pela abstinência do cigarro pode iniciar dentro de algumas horas após a interrupção e atingir o auge poucos dias depois sem o cigarro. As maiores queixas de quem parou de fumar se referem à compulsão aumentada, à irritabilidade e à dificuldade de concentração que perduram por muito tempo. Em muitos casos este estado pode ser observado por trinta dias ou mais, mas os sintomas de compulsão podem durar meses ou anos, requerendo atenção constante.
Outras relações com a personalidade foram encontradas indicando uma maior prevalência de casos de transtorno de pânico, esquizofrenia, transtorno de déficit de atenção, alcoolismo e até mesmo de comportamento violento entre tabagistas.
Muitas dificuldades surgem na vida de quem está disposto a abandonar o cigarro, porém, os ganhos obtidos após, compensam qualquer sacrifício. A eliminação do odor característico que fica impregnado nos cabelos, na pele e nas roupas são o primeiro ganho, depois, com o tempo (e a ajuda de um dentista), o amarelo dos dentes dará lugar a um sorriso misto de saúde e de felicidade, a desintoxicação gradual do organismo se fará sentir e uma nova pessoa ressurgirá. Sempre é tempo de parar de fumar e de tomar a iniciativa para uma primeira tentativa. Em qual você vai conseguir? Dê-se esta oportunidade, apenas tente.    

 César AR de Oliveira – psicólogo

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Proteção demais....

“Ei, mãe, não sou mais menino, não é justo que também queira parir meu destino...” – Roberto Carlos
  

Toda a criança necessita de proteção para um melhor desenvolvimento e crescimento, e não há dúvidas de que esta tarefa deve ser inicialmente incumbida aos pais. Mesmo na modernidade, onde é frequente a ocorrência de mães que trabalham fora de casa e de pais que dedicam boa parte do tempo à educação dos filhos, ainda são elas as que mais envolvem-se neste processo. Todavia, quando há uma ausência decorrente de pouco convívio entre mãe/filhos, corre-se o risco de que esta seja compensada com muito apego, e o que era para ser saudável pode tornar-se prejudicial. A autonomia das crianças, suas autoestima e confiança, serão melhores resolvidas se estas tiverem oportunidades para suas tentativas, onde erros e acertos serão parceiros na construção de um aprendizado.
Fala-se muito em limites na educação dos filhos, até que ponto eles podem ir, porém, a recíproca deve prevalecer também para os pais: eles devem poder distinguir até aonde suas preocupações com os filhos não são exageradas. Muito deste comportamento controlador vem da forma como estes pais foram criados, de suas experiências infantis, de suas carências afetivas ou de suas estruturas de personalidades. O ciclo vital pelo qual passam, seja por casais jovens e inexperientes ou mesmo por pais de idade mais avançada (que podem achar estarem velhos demais para criar os filhos) influenciam neste afazer. Ainda, a ausência de um dos cônjuges, seja por separação, morte ou por contingência de afastamento para o trabalho, pode levar a quem permanece (normalmente a mãe) a cometer exageros. E isto serve tanto para crianças, adolescentes ou mesmo adultos jovens que ainda moram juntos. O filme brasileiro Através da Janela é um exemplo disto, retrata a relação de uma mãe, viúva, com seu único filho que (apesar de seus 22 anos de idade) é tratado como se dependesse da mãe para tudo, desde lhe servir o café da manhã até a recortar jornais para auxiliá-lo na busca por um emprego. A conseqüência dos exageros por ela cometidos se vê na película e na vida real de muitas famílias.   
É comum, num ambiente de insegurança paterna, a manifestação desta através de um estado elevado de ansiedade dos pais, o qual deve ser controlado sob pena de que tal sentimento venha a ser percebido e transferido também para os filhos. Em era de avanços tecnológicos, há pais que através de um telefone celular imiscuem-se na vida de seus filhos monitorando-os permanentemente, de maneiras a obter com isto alguma forma ilusória de tranquilidade. Não raro, pais com comportamentos superprotetores tendem a reeditar com seus filhos dificuldades que tiveram em suas adolescências, simplesmente atualizando seus medos sem tê-los superados. Como na letra em epígrafe, pensam que devem ser unicamente os responsáveis pelos destinos de seus rebentos.
O crescimento dos filhos é um processo natural e que deve ser enfrentado como um desafio, não cabendo aos pais utilizar o discurso do perigo para impedir o distanciamento. Por sua vez, a distância saudável dos filhos não significa um afastamento afetivo, os pais podem ser excelentes educadores sem, no entanto, estarem muito apegados ou – em lado oposto - indiferentes. Crescer não implica em despedaçar a família de origem, mas em transformá-la sem permanecer enredado na ilusão de que a família é o mundo inteiro e que o próprio espaço de vida se esgota nela. Cabe aos pais conversar e refletir sobre suas dificuldades na educação de seus filhos, lembrando que tal ofício requer curiosidade e busca de informações sobre o que está acontecendo no mundo deles. Mas apressem-se, as mudanças estão rápidas demais.

  

César AR de Oliveira – psicólogo

quinta-feira, 22 de março de 2012

Disfunção sexual masculina e desejo

“O homem não está na cama para se divertir, mas para provar que é formidável como amante, chantageado com a idéia de que, se não o fizer, será desprezado, posto sob suspeita de não gostar de mulher, desqualificado como homem e como pessoa.” (Veiga, 1997)



Extraí do livro O aprendiz do desejo (Cia das Letras) do psicanalista Francisco Veiga a citação em epígrafe. A partir desta, é possível perceber o quanto o homem cobra de si mesmo sobre seu desempenho sexual, sobre sua virilidade, sobre os atributos masculinos. No entanto – no texto – a idéia que o chantageia, mais do que sua, é da coletividade: afinal, as chacotas e a humilhação poderão vir de outros homens, ou então, (escárnio!) circular entre as conversas femininas.

É da nossa cultura a pressão exercida sobre os homens quanto à maneira que deveriam extravasar seus sentimentos, afinal, “Homem não chora” e deve manter-se sempre forte e, não bastasse, disposto a provar-se forte. Com relação à disfunção erétil, a clássica frase “Isto nunca aconteceu comigo antes...” é uma forma racionalizada de negar a vulnerabilidade à falha. Mas de que falha falamos? A disfunção erétil por si constitui-se como tal ou a falha encontrar-se-ia em outro local?

Entenda: A disfunção erétil (popularmente chamada de impotência sexual masculina) tem suas causas nos fatores emocionais tanto quanto nos fatores físicos. Alterações vasculares, má formação peniana, diabetes, fugas venosas, hipertensão, tabagismo, alcoolismo, entre outros, podem causar esta disfunção sexual, mas o que se vê também na clínica psicológica é que a ansiedade, a depressão, a baixa auto-estima e o estresse são também os grandes responsáveis por essa situação que é vista com tanto preconceito pelos homens.

De qualquer forma, essa disfunção atinge homens de todas as idades e classes sociais, além de provocar muita frustração, vergonha, angústia e medo. Na realidade, a maioria dos homens tem muita dificuldade de aceitar que podem estar com problemas sexuais, uma vez que muito da auto-estima está embasada na ereção do pênis, e essa vem do universo masculino e da eleição de seus ícones de virilidade, tais como, músculos, força física, inteligência, e, sem dúvidas, ereção.

Evidentemente que em uma investigação sobre tal disfunção sexual não descartam-se as questões de ordem biológicas, mas, eliminados os riscos do indivíduo ter desenvolvido uma doença ainda sem diagnóstico, a investigação deve ser também das condições emocionais dessa pessoa e conseqüentes comprometimentos.

Não ser formidável como amante é um dos maiores temores masculinos e é capaz de determinar os rumos de qualquer relacionamento, pois é sabido que os homens não aceitam falhar neste aspecto e se sentem desmoralizados, uma vez que este fato é tido como um atentado mortal não só à sua virilidade, mas à sua masculinidade e poder como um todo. Mas “provar” sua performance para quem? E onde é que fica o desejo? “A infinito delírio chamado desejo, esta fome de afagos e beijos, esta sede incessante de amor...” Partindo do que nos diz o poeta, permitimo-nos interpretar que o desejo, este entusiasmo sem fim, que tem sede e fome – e por isto vive! – é carente de afetos, e aí reside a diferença entre os homens que buscam sexo daqueles que buscam afetos: no segundo grupo, há que se ter desejo. Para Platão, o desejo é característico daquele que vive, que sente sua incompletude. Para a Psicanálise, é o que move o sujeito em direção ao Outro em busca da completude.

Então, muito antes de que nos sintamos pressionados pelo grupo, ou por aquilo que se esteriotipize como cultura masculina, é preciso parar e pensar: há desejo? Afinal, precisamos levar em conta que estamos lidando com nossos sentimentos e com o dos outros, e que destes, resultamos nós, protagonistas de nossa felicidade, ou não.

A disfunção sexual pode e deve ser tratada tanto por médicos quanto por psicólogos. Quando necessário e quanto antes o indivíduo procurar ajuda, mais rápido esse problema poderá se resolver.

 

César A R de Oliveira

Psicólogo